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quarta-feira, 11 de março de 2026

Fragmentos de um Ícone: EPiC

EPiC 
(EUA, 2026)

Título brasileiro:
EPiC: Elvis Presley in Concert
Gravação:
13 de abril de 1955 - 14 de janeiro de 1973
Lançamento:
20 de fevereio de 2026 (EUA)
27 de fevereiro de 2026 (Mundial)
Duração:
97 min
Produtora:
Sony Music Vision
Bazmark Films
Authentic Studios
Orçamento:
US$ 11 milhões
Arrecadação:
US$ 17 milhões
(MUNDIAL, até 11 de março de 2026)
Elenco principal:
Elvis Presley
Banda TCB
The Sweet Inspirations
The Imperials
Millie Kirkham
Kathy Westmoreland
JD Sumner
The Stamps Quartet
Trilha sonora:
"EPiC: Elvis" Presley in Concert" (CD / Digital)
(20 de fevereiro de 2026)


EPiC: Elvis Presley in Concert
é o segundo longa‑metragem a tratar da vida do Rei do Rock. Nele, Elvis reconta os acontecimentos de sua trajetória a partir do retorno aos palcos no final dos anos 1960. Dirigido por Baz Luhrmann, o filme utiliza imagens nunca antes disponibilizadas oficialmente, além de alguns frames totalmente inéditos.

Após o sucesso de ELVIS (2022), Baz e sua equipe passaram a investigar rumores de que fitas usadas nos documentários ELVIS: That's the Way It Is (1970) e Elvis On Tour (1972) estariam armazenadas nas minas de sal da Warner Bros. no Kansas, iniciando uma verdadeira caça ao tesouro. Foram encontradas 68 caixas com material variado em 35 mm e 8 mm, incluindo filmagens dos shows no Havaí em 1957 e um áudio de 45 minutos de uma entrevista em que Elvis fala sobre sua vida e as dificuldades de ser um artista do seu porte.

Parte do material, especialmente as fitas de 1957, estava sem áudio, o que levou Baz e sua equipe a localizar, recuperar e sincronizar todo o conteúdo em um trabalho que durou dois anos. Esses trechos recuperados e ressincronizados constituem novo material resultante dos esforços da equipe. O mesmo vale para as intervenções feitas nas fitas dos shows e entrevistas de 1970 e 1972, embora em todos os casos existam ressalvas que discutiremos adiante. O que realmente se apresenta como inédito são as fotos e os filmes em 8 mm cedidos por Graceland, que guarda um acervo extenso sob rígida vigilância.

O resultado desses trabalhos foi EPiC, que Baz definiu como: “Não é um documentário nem um concerto, mas algo que enaltece a magnitude de Elvis como artista e também oferece reavaliações profundas sobre sua humanidade e vida privada.”

Embora o filme percorra toda a carreira de Elvis antes de chegar aos anos 1970, o produto final é, na prática, um híbrido entre That's the Way It Is e Elvis On Tour, com sutis referências a outros momentos. Pode-se afirmar, sem exagero, que se trata mais de uma celebração da maestria de Elvis voltada a uma possível nova geração de fãs do que de um lançamento pensado para os admiradores de longa data, que já conhecem grande parte — se não tudo — do que o filme apresenta.

Lançado mundialmente em 27 de fevereiro de 2026, o filme teve boa recepção nas salas, mas não conseguiu superar seu orçamento na primeira semana, algo que raramente é motivo de comemoração para os estúdios. As vendas do CD e das versões digitais da trilha sonora mostram tendência de alta, porém permanecem modestas por enquanto. Até 11 de março de 2026, o filme arrecadou US$ 17 milhões mundialmente, valor que supera o orçamento por margem reduzida. As produtoras envolvidas esperam que a chegada do filme às plataformas de streaming e o lançamento do LP da trilha sonora em 24 de abril de 2026 contribuam para elevar esses números.

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Abaixo listamos alguns erros e fazemos observações sobre nossa experiência com o filme, com base no princípio de que não se deve alterar fatos para agradar partes interessadas ou criar polêmicas comerciais.

Esta resenha será dividida em segmentos, de acordo com a música utilizada durante ele.
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SEGMENTO 1: "CAN'T HELP FALLING IN LOVE WITH YOU"

O filme começa com uma breve recapitulação dos eventos de 1970 a 1972, centrada nos shows para That's the Way It Is e Elvis On Tour. Ao fundo, ouvimos uma versão bastante melódica do tema de abertura padrão dos shows de 1971 a 1977, Also Sprach Zarathustra, embora estejamos vendo e ouvindo trechos de shows e entrevistas gravados muito antes da existência dessa icônica introdução. Não chega a ser totalmente incômodo, mas pode levar novos fãs a entenderem que ela já fazia parte dos primeiros shows do retorno de Elvis aos palcos. A versão de “An American Trilogy” ouvida na sequência apresenta ótima espacialização estéreo.


SEGMENTO 2: "THAT'S ALL RIGHT"

Em seguida, há uma recapitulação dos anos 1950. Ouvimos Elvis falar sobre como não consegue parar de se mexer ao cantar, enquanto vemos fotos inéditas do período e filmagens que antes só circulavam de forma não oficial. É exibido um breve trecho da que é considerada a filmagem mais antiga de Elvis no palco, capturada em 13 de abril de 1955. Elvis continua relatando o início de sua carreira e comentando como a sociedade preconceituosa da época se mostrava indignada e estarrecida com seus movimentos. Neste ponto, vemos e ouvimos Elvis se preparando para subir ao palco do International Hotel, em Las Vegas, em 10 de agosto de 1970, e então cantando uma versão de seu primeiro hit, “That’s All Right”, originalmente vista em That's the Way It Is.


SEGMENTO 3: "TIGER MAN"

Luhrmann optou por não aprofundar o tema do preconceito, e talvez tenha sido a melhor escolha. Hoje sabemos que a hostilidade de parte da sociedade branca contra Elvis vinha, em grande medida, do fato de ele reconhecer a influência negra em sua música e em seus movimentos — uma energia que a música despertava nele. Em documentários específicos sobre o tema, muitos admiradores de Elvis nos anos 1950 admitem que o problema não era simplesmente o fato de ele se mover de forma sexual no palco, como alegava a crítica da época, mas a exposição do que consideravam o “ritmo animalesco e promíscuo dos negros”. O segmento termina com a rendição de “Tiger Man”, segunda parte do medley com “Mystery Train”, exibido na abertura de That's the Way It Is.


SEGMENTO 4: "WEARIN' THAT NIGHT LIFE LOOK"

Na sequência, vemos Elvis sendo enviado ao serviço militar na Alemanha e há uma recapitulação dos anos 1960. O trecho é curto, mas bastante inflado com cenas de vários filmes dos seus treze anos em Hollywood. Ouvimos Elvis dizer que passou a odiar as produções em que era obrigado a trabalhar por causa dos contratos negociados por Parker. Elvis é direto: “Eu leio o roteiro e já sei que será mais um filme com a mesma história e doze músicas diferentes.”

Há, porém, um ponto que pode incomodar: enquanto Elvis fala dos anos 1960 e vemos imagens desse período, a trilha sonora traz material de 1973 — o que pode confundir tanto novos quanto antigos fãs quanto à época em que as músicas foram gravadas.

Por alguma razão bizarra, Luhrmann decidiu ignorar completamente o icônico ’68 Comeback Special e as gravações e shows de 1969, sem os quais Elvis dificilmente teria recuperado o impacto necessário para chegar ao patamar de 1970. Por escolhas financeiras de Parker, que negligenciou a necessidade de manter seu agenciado não apenas nas telas, mas também nas paradas musicais, Elvis era um cantor quase esquecido em 1968, ofuscado pelos novos artistas e tendências. Se o ’68 Comeback Special não o tivesse trazido de volta aos lares das pessoas, e se os discos From Elvis in Memphis, In Person at the International e Back in Memphis não tivessem sido produzidos, não haveria material para Luhrmann — nem haveria o Elvis pós‑1970 que o mundo conheceu.


SEGMENTO 5: "HOUND DOG"

O ano de 1970 começa com os ensaios de julho. O som foi convertido para estéreo de forma magnífica, mas as imagens são velhas conhecidas. Há, sim, trechos de filmagens inéditas, porém são poucos. O mesmo se aplica aos concertos em Vegas, já vistos em That's the Way It Is e em muitos bootlegs, de forma mais completa em That's the Way It Is: The Complete Works (2007).

Nota‑se ampla edição de áudio, perceptível em momentos em que vemos Elvis longe do microfone, mas ainda o ouvimos cantar. A transferência do áudio original para estéreo ficou boa, embora seja evidente o uso de overdubs na orquestra, com instrumentos que originalmente não estavam presentes. Uma sequência bem elaborada alterna entre Elvis cantando “Hound Dog” no The Ed Sullivan Show (1956) e no palco em 1970.


SEGMENTO 6: "POLK SALAD ANNIE"

Do show ao vivo, voltamos alguns dias no tempo para os ensaios no palco, em 7 de agosto de 1970. Elvis trabalha Polk Salad Annie com sua banda e há aqui um trecho completamente inédito: ele faz trocadilhos com a letra e comenta, em tom hipotético, sobre o uso de cocaína e haxixe pela personagem da canção. É fácil entender por que esse momento ficou tanto tempo fora do alcance do público, dadas as associações infundadas que ligavam Elvis ao uso de substâncias ilegais.

O áudio ao vivo foi editado a partir de diferentes shows e muito bem transferido para estéreo, mas ouvir a plateia sobre as filmagens dos ensaios pode, novamente, confundir alguns espectadores, levando-os a crer que se trata de uma apresentação ao vivo.


SEGMENTO 7: "YOU'VE LOST THAT LOVIN' FEELIN'"

Em 30 de março de 1972, Elvis fala sobre seus shows e o entrosamento com a banda. A sequência é longa e oferece muitos insights sobre o Elvis daquele momento. You've Lost That Lovin' Feelin' começa a tocar ao fundo durante os diálogos e, em seguida, vemos uma versão no palco, sem as edições empregadas em That's the Way It Is.


SEGMENTO 8: "WEARIN' THAT LOVED ON LOOK"

Elvis discorre sobre o peso da fama em sua vida e sobre como saber cantar mudou completamente a forma como seus colegas o viam no colégio. Aqui temos uma das raras ocasiões em que o cantor fala sobre sua primeira experiência com a música: aos 10 anos, apresentou‑se na escola cantando Old Shep em um festival e obteve o terceiro lugar (algumas fontes indicam a quinta posição).


SEGMENTO 9: "LITTLE SISTER / GET BACK"

Ainda em março de 1972, Elvis continua falando sobre seu início e conta como seu pai se opôs à ideia de ele se tornar cantor, preferindo que seguisse como eletricista ou motorista de caminhão. Surge aqui a famosa frase de Vernon: “É melhor você decidir se quer ser um tocador de violão ou um eletricista. Eu nunca vi um tocador de violão que valesse alguma coisa.”

A filmagem da performance do medley Little Sister / Get Back durante o show da meia‑noite de 12 de agosto de 1970 é inédita oficialmente, embora já estivesse disponível por outros meios desde os anos 1990.


SEGMENTO 10: "I SHALL BE RELEASED"

Enquanto ouvimos Elvis improvisar uma música de Bob Dylan durante as sessões da Maratona de Nashville, em junho de 1970, são exibidas imagens de bastidores de 1972. O Rei do Rock aparece dando total atenção à pequena Denise Sanchez, uma fã de oito anos que sofria de leucemia, em seu camarim antes do show de 19 de abril em Albuquerque. No documentário Elvis On Tour, ela é ouvida pedindo que Elvis cante “Teddy Bear” para ela, mas esse trecho foi cortado aqui. Há alguns frames inéditos dos bastidores de shows de 1972.


SEGMENTO 11: "BURNING LOVE"

Em 5 de abril de 1972, Elvis ensaia “Burning Love”com sua banda em Buffalo, Nova York, em filmagens oficialmente inéditas e de alta qualidade. A edição de som e imagem alterna entre esse ensaio e a primeira versão da música no palco, enquanto vemos trechos inéditos dos bastidores de vários shows. “Stranger in My Own Home Town”, dos ensaios de julho de 1970, é ouvida sobre imagens de bastidores de 16 de abril de 1972 — sequência originalmente mostrada em Elvis On Tour, mas aqui editada para remover uma pequena piada de cunho sexual feita por Elvis.


SEGMENTO 12: "(YOU'RE THE) DEVIL IN DISGUISE"

Parker é o foco neste momento, enquanto ouvimos a gravação de 1963 que expressa exatamente a opinião da maioria dos fãs sobre Andreas Cornelis Van Kuijk: Você é o diabo disfarçado. Naturalmente, a admiração de Luhrmann por outros “diabos disfarçados” pode transmitir certa sensação de hipocrisia.

Enquanto Elvis fala sobre sua associação com Parker e deixa implícito o quanto aquele homem o controlava, vemos imagens que confirmam seu relato — a mais contundente delas mostra Parker enraivecido nas sombras do show de 10 de abril de 1972, em Richmond.


SEGMENTO 13: "NEVER BEEN TO SPAIN"

Seguindo no mesmo tema do segmento anterior, ouvimos Elvis comentar como gostaria de viajar e se apresentar em outros países. Imagens raras, embora não inéditas, da performance de Seguindo no mesmo tema do segmento anterior, ouvimos Elvis comentar como gostaria de viajar e se apresentar em outros países. Imagens raras, embora não inéditas, da performance de Never Been to Spainem Hampton Roads, no dia 9 de abril de 1972, são exibidas, acompanhadas de uma edição da música reunindo trechos de diversas apresentações do período. Alguns segundos inéditos de Richmond são visto no final.


SEGMENTO 14: "LOVE ME"

Assistimos à performance de Love Me no The Milton Berle Show em 1956, enquanto Elvis fala sobre a devoção dos fãs e o quanto isso podia ser um fardo. Entre relatos de roupas rasgadas e mulheres ousadas, vemos trechos da canção em Hampton Roads, em 1972, e em Las Vegas, em 12 de agosto de 1970.


SEGMENTO 15: "BLUE MOON"

Gravada no Sun Studio em 1954, a música é ouvida enquanto Elvis comenta sobre as diferenças no processo de masterização entre suas primeiras gravações e aquelas feitas na RCA em 1956. O cantor também aparece refletindo sobre a distinção entre sua imagem pública e sua vida privada — e como uma deveria permanecer separada da outra — durante a coletiva de imprensa para os shows no Madison Square Garden, em 9 de junho de 1972. Um trecho do ensaio de Twenty Days and Twenty Nights, realizado em julho de 1970, é ouvido e exibido ao final.


SEGMENTO 16: "CAN'T STOP LOVING YOU"

Em uma entrevista de 1972, ouvimos Elvis explicar a dinâmica que estabeleceu com sua banda no palco. Ele esclarece que todos estavam preparados para tocar cerca de 150 músicas diferentes, ficando a seu critério decidir qual seria a próxima. De fato, Elvis costumava alterar a ordem das canções ou retirar e recolocar algumas em diferentes shows. No entanto, havia o controle de Parker sobre o que considerava “clássicos” — músicas que, segundo o agente, afastariam o público caso não fossem apresentadas em todas as performances. Essa imposição acabaria deixando Elvis desgostoso com seus shows a partir de 1974.

Ao final das explicações, temos uma versão de I Can’t Stop Loving You, retirada do show das 20h30 de 13 de agosto de 1970. A edição de áudio evidencia a voz cansada de Elvis após quatro dias consecutivos de apresentações. O trecho é novo em um contexto como este filme, mas não inédito, já que foi lançado oficialmente em 1992.


SEGMENTO 17: "ARE YOU LONESOME TONIGHT"

Enquanto assistimos a 40 segundos de imagens inéditas de bastidores em agosto de 1970, Elvis fala sobre como se sentia sozinho e solitário mesmo cercado por tantas pessoas — uma solidão recorrente em sua vida, que permeou muitos, senão a maioria, dos momentos mais difíceis de sua carreira. No palco, Elvis canta Are You Lonesome Tonightna apresentação da meia‑noite de 12 de agosto de 1970, em trecho oficialmente inédito.


SEGMENTO 18: "ALWAYS ON MY MIND"

Refletindo sobre o significado do amor, Elvis retorna ao tema da solidão e confessa que precisa de alguém para amar e ser amado, para que sua vida tenha sentido. Baz Luhrmann demonstra sua devoção intensa a Priscilla Beaulieu, o que transparece aqui em imagens de arquivo nas quais ela ocupa o centro das atenções, enquanto ouvimos Elvis cantar  Always on My Minddurante o ensaio de 30 de março de 1972. O take utilizado é oficialmente inédito, embora já conhecido do público. Esta seção também apresenta várias fotos novas de Lisa com seu pai.


SEGMENTO 19: "OH HAPPY DAY"

Voltamos ao ensaio de 7 de agosto de 1970, onde Elvis nos presenteia com uma versão magnífica da canção. Embora o áudio não seja inédito, as filmagens completas são. A edição de som está muito bem realizada.


SEGMENTO 20: "HOW GREAT THOU ART"

Estamos falando de Elvis, e obviamente o Gospel não poderia faltar. No palco em Hampton Roads, em 1972, o Rei do Rock apresenta uma versão excelente de sua gravação de 1966, faixa‑título do álbum lançado no ano seguinte. Seus vocais foram praticamente isolados, e a adição de eco confere um tom etéreo à música. Um trecho inédito da sessão Gospel improvisada durante os ensaios de março de 1972 é exibido, mostrando Elvis cantando Nearer My God to Thee, antes de retornarmos para a conclusão de How Great Thou Artno palco.


SEGMENTO 21: "A BIG HUNK O' LOVE"

Elvis ensaia a música em 5 de abril de 1972 e, em seguida, o vemos apresentando‑a ao vivo nove dias depois, em Greensboro — versão que foi oficialmente lançada em 1992. Por algum motivo não explicado, os close‑ups durante o solo de James Burton são retirados de Aloha From Hawaii (1973), o que fica evidente pela cor da roupa do guitarrista: azul‑marinho em 1972 e branca em 1973.


SEGMENTO 22: "BRIDGE OVER TROUBLED WATER"

De volta aos estúdios da MGM em Culver City, em julho de 1970, Elvis inicia o ensaio de uma das músicas que se tornariam ícones de suas apresentações, representando de forma perfeita sua maestria e extensão vocal, em um trecho de filme até então oficialmente inédito. No palco, vemos interpretações da canção em Las Vegas, em 1970, e em Hampton Roads, em 1972. Enquanto J.D. Sumner comenta sobre como Elvis dominava o palco, são exibidas imagens inéditas dos ensaios de 1972.


SEGMENTO 23: "IN THE GHETTO"

A versão de estúdio da música começa com alguns overdubs que soam estranhos, enquanto ouvimos Elvis falar sobre manter suas opiniões pessoais fora dos palcos. É um segmento curto, que termina com a versão ao vivo da canção, lançada oficialmente em 1992, seguida da interpretação de Walk a Mile in My Shoesem versão oficialmente inédita.


SEGMENTO 24: "SUSPICIOUS MINDS"

Talvez tenha faltado criatividade, ou Baz realmente quis que esse trecho fosse apresentado dessa forma. Seja como for, vemos a versão mais conhecida da música nos palcos: a interpretação de 11 de agosto de 1970, registrada em That’s the Way It Is. Aqui, a edição de áudio é pesada, colocando os agudos de Millie Kirkham em primeiro plano e criando uma distração desnecessária. Quando Elvis move a cabeça para marcar as batidas de Ronnie Tutt, o som da bateria foi removido, gerando uma sensação estranha.


SEGMENTO 25: "CAN'T HELP FALLING IN LOVE WITH YOU"

Também é mostrado um trecho oficialmente inédito da festa pós‑show no camarim de Elvis, no International Hotel, em 10 de agosto de 1970. Vestindo o famoso traje de couro preto do ’68 Comeback Special, o cantor conversa com celebridades. O Rei do Rock é então ouvido falando sobre como era constantemente procurado por seus fãs e o quanto sentiria falta disso caso encerrasse a carreira, enquanto o fundo musical é composto por uma edição de Are You Lonesome Tonight, intitulada Bring the Curtain Down. A finalização de An American Trilogy, iniciada no Segmento 1, acontece aqui.

Por fim, chegamos ao encerramento do filme e, naturalmente, não poderia ser com outra música senão aquela que concluiu quase todos os mais de 1.100 concertos de Elvis entre 1969 e 1977. Ouvimos o cantor interpretar a canção e vemos imagens de diversos shows, embora sem material inédito. Há, no entanto, cerca de 20 segundos de bastidores oficialmente inéditos exibidos antes e durante os créditos. Nesse trecho, ouvimos edições produzidas a partir de diferentes músicas, reunidas sob os títulos American David”, A Change of Reality (Do You Miss Me?)” e Don’t Fly Away”.

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NOSSA OPINIÃO

O filme se trata de uma obra ambivalente. Por um lado, o material traz momentos preciosos da carreira de Elvis, com imagens raras e inéditas, além de edições de áudio bem trabalhadas que certamente agradam aos fãs. Por outro, algumas escolhas criativas deixam a desejar, como a ausência do ’68 Comeback Special e de registros fundamentais de 1969, além de edições que podem confundir o público quanto às épocas e contextos das gravações.

O grande mérito está em revelar Elvis em ensaios e bastidores pouco explorados, expondo sua vulnerabilidade, solidão e energia no palco. Já os pontos fracos aparecem em cortes e inserções desnecessárias, como overdubs estranhos e substituição de imagens originais por trechos de outros shows.

Em síntese, o filme funciona como documento histórico e celebração da arte de Elvis, mas deixa a sensação de que poderia ter sido mais fiel e criativo em sua narrativa. É uma obra que emociona e, ao mesmo tempo, provoca reflexão sobre como as escolhas de edição moldam a memória de um artista tão icônico.



TRILHA SONORA

Para promover o filme,
a RCA e a Sony produziram uma trilha sonora com as 27 faixas apresentadas na obra. O resultado foi lançado em CD e nas plataformas digitais em 20 de fevereiro de 2026. Apesar de proporcionar uma boa experiência auditiva, o lançamento ainda registra vendas baixas e uma exposição menor do que a esperada até 11 de março de 2026.

Uma versão em LP duplo está programada para 24 de abril de 2026, coincidindo com a estreia do filme nas plataformas de streaming.







terça-feira, 19 de novembro de 2024

A Versão Alternativa: Priscilla

PRISCILLA (EUA, 2023)

Título brasileiro:
Priscilla
Gravação:
24 de outubro - dezembro de 2022
Lançamento:
27 de outubro de 2023 (Mundial)
26 de dezembro de 2023 (Brasil)
Duração:
113min
Produtora:
The Apartment Pictures
American Zoetrope
A24
Sony Pictures
Stage 6 Films
Orçamento:
US$ 20 milhões
Arrecadação:
US$ 21 milhões (MUNDIAL, até 25 de dezembro de 2023)
Elenco principal:
Cailee Spaeny
Jacob Elordi
Dagmara Domińczyk
Raine Monroe Boland
Emily Mitchell
Jorja Cadence
Rodrigo Fernandez-Stoll
Luke Humphrey
Trilha sonora:
"Priscilla" (CD / CD duplo / Digital)
(2 de novembro de 2023)


Priscilla é o primeiro filme de cinema a tratar da vida de Priscilla Ann Beaulieu, ex-esposa do Rei do Rock Elvis Presley, antes, durante e após o casamento com o cantor. 

Baseado ligeiramente no livro "Elvis & Me", lançado por Priscilla em 1988 e transformado em filme para a televisão no mesmo ano, o filme conta sua história modificando alguns momentos para tentar gerar simpatia para com a ex-esposa de Elvis. O roteiro, assinado pela escritora Sandra Harmon e a diretora Sofia Coppola com assistência da própria Priscilla Beaulieu, transforma Elvis, nas palavras de Lisa Marie Presley - com as quais concordamos - em "um predador e manipulador" em um filme "vingativo e desdenhoso".

A produção foi anunciada logo após o sucesso financeiro de "ELVIS", a cinebiografia do cantor dirigida por Baz Luhrmann em 2022, e o projeto saiu rapidamente do papel após Priscilla divulgar na mídia que gostaria de esclarecer algumas coisas vistas no filme de Luhrmann sobre ela.

Sabendo das mudanças nas histórias contadas por Priscilla em "Elvis & Eu" e como isso afetaria negativamente a imagem de Elvis, Lisa Marie Presley e a EPE foram ligeiros em negar qualquer ajuda para a produção de Coppola, inclusive vetando o uso de imagens, voz ou músicas do cantor. Lisa Marie ainda foi mais longe e enviou e-mails para Sofia Coppola com críticas ferrenhas ao roteiro e um apelo para que ela não filmasse o projeto.

Sofia Coppola, filha do aclamado diretor Francis Ford Coppola e prima do ator Nicolas Cage (cujo verdadeiro nome é Nicolas Coppola), sempre foi conhecida por suas produções impactantes, mas parece que em "Priscilla", provavelmente a pedido da própria, a diretora exagerou no feminismo e em tentar passar tudo como machismo ou simplesmente desdém. Além disso, embora seja um filme que veio prometendo trazer a real história de Elvis Presley e Priscilla Beaulieu, algumas cenas e acontecimentos foram totalmente inventados, inseridos em contextos que não os reais ou distorcidos para favorecer uma narrativa.

Quando lançado mundialmente em 27 de outubro de 2023, o filme teve uma baixa aceitação nos cinemas, não conseguindo nem recuperar seu orçamento de US$ 20 milhões, número que só foi alcançado dois meses depois. Até 25 de dezembro de 2023, o filme arrecadou apenas US$ 21 milhões e é considerado um fracasso de bilheteria.

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Abaixo listamos alguns erros e fazemos observações sobre nossa experiência com o filme, dada a partir do ponto de vista de que não se deve modificar fatos para agradar partes ou criar polêmicas comerciais.

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"Você gosta de Elvis Presley?" O oficial casado Terry A. West entra em um restaurante de uma base aérea americana na Alemanha em 1959 e pergunta à jovem Priscilla de 14 anos se ela gostaria de conhecer o Rei do Rock. Ela, sem pestanejar, aceita contanto que possa pedir permissão aos pais antes. E é aqui, no quarto minuto de filme, que encontramos o primeiro erro.

Na verdade, Priscilla teria um namorado à época, um soldado chamado Currie Grant. Currie contou por diversas vezes que foi Priscilla que pediu que ele a apresentasse a Elvis em troca de uma recompensa bastante lasciva, até que foi processado por ela assim que ameaçou divulgar fotos íntimas dela em 1959 para provar seu relacionamento. Houve vários julgamentos sobre o caso, com Priscilla acusando Grant de calúnia e tentativa de difamação, além de afirmar que tais fotos não existiam, mas o mais curioso é que, no fim, Grant recebeu US$ 10 mil e teria sido intimado a devolver as fotos que ela dizia não existirem.

Assim que Priscilla chega à casa de Elvis em Bad Nauheim, notamos que a diretora tentou estabelecer Elvis como um predador já nas primeiras palavras trocadas com a jovem. E isso é reforçado pela música que ele toca no piano logo após, "Whole Lotta Shakin' Goin' On", um sucesso de Jerry Lee Lewis, que se casou com a própria prima de 13 anos. Na sequência também vemos Priscilla se sentir pressionada a ver Elvis novamente, como se ele a estivesse obrigando a comparecer a mais uma festa - sendo que garotas é que não faltavam para Elvis, se fosse apenas isso que ele quisesse -, e o cantor maliciosamente a convidando para ficarem a sós.

Priscilla briga com seus pais quando eles se mostram preocupados com o fato de que ela passa muito tempo com Elvis e não dorme direito. Além de ser mentira que seu pais se preocupavam tanto, uma vez que ela passava noites a fio com o cantor, a tentativa de dizer que ela não dormia mais por já estar pegando os hábitos de Elvis é doentia e mentirosa. Assim como também é a forma com que o Rei do Rock é apresentado novamente como um predador ao dizer aos pais de Priscilla que gosta dela por ela ser "nova, mas mais madura do que sua idade aparenta". Para reforçar essa imagem negativa, ainda o vemos dando presentes caros para ela como se tentasse impressioná-la ou comprá-la.

Depois que Elvis volta para os EUA, em março de 1960, o filme pula rapidamente os próximos três anos. Priscilla lê sobre o cantor e seus affairs nas revistas de fofocas e nós somos forçados a acreditar - ou fingir que acreditamos - que ela passou esse período sozinha, amargurada e esperando o reencontro com seu grande amor.

Aqui há outra discrepância: ao invés do que vemos, a garota se encontrou com Elvis nesse período. Pior ainda é o lançamento de "G.I. Blues" ter sido movido para 1962, assim como o rumor do namoro com Nancy Sinatra, e a mãe de Priscilla tentando convencê-la a esquecê-lo, quando na verdade havia muito interesse por trás do relacionamento.

Quando Elvis diz a Priscilla que irá levá-la para morar com ele em Graceland, novamente percebemos um ar de manipulação enquanto a garota expressa visualmente uma insatisfação que nunca existiu. De fato, havia uma empreitada por parte de Priscilla para que Elvis a levasse para sua mansão o quanto antes. Uma vez lá, ela se sente rejeitada sexualmente pela primeira vez pelo cantor, passando-nos a mensagem de que, além de predador e manipulador, ele talvez também só se animasse ao sexo se ela fosse mais nova.

Vemos então Priscilla acordar dois dias após tomar uma pílula oferecida por Elvis e uma sequência em Las Vegas que sugere que ele a apresentou a tudo que podia ser errado: drogas, bebidas, jogatina e farra generalizada. Há um endeusamento de sua figura pura e meiga, enquanto a direção age de forma oposta nas ações do cantor, colocando-o como um "diabo disfarçado".

Com 35 minutos desse festival de horrores, tivemos que parar essa resenha. A coragem de continuar voltou mais de um dia depois e de forma fraca.

Após alguns meses com Elvis em Graceland, Priscilla se mostra relutante em ter que voltar a morar com seus pais na Alemanha. Outro ponto que nunca ocorreu na realidade se torna a base para que o padrasto de Priscilla aceite os termos de Elvis e concorde que a garota vá morar com ele definitivamente. A história conta algo muito mais sombrio: o cantor foi ameaçado pelos pais da "inocente menina" e ele, com medo da repercussão negativa e provavelmente influenciado por Parker, cedeu. O próprio Elvis viria a dizer mais tarde que sofrera ameaças caso não a colocasse sob seu teto. 

Assim que se instala em Graceland, Priscilla passa a se sentir sozinha e a perceber que está em um lugar onde nada lhe pertence, ainda mais com Elvis sempre filmando em Hollywood. É claro que essa é outra parte fictícia da trama, uma vez que, se havia algo pelo qual Graceland era famosa, esse algo era o fato de que estava sempre lotada de pessoas. Ver Dee repreendendo a garota por estar no pátio da propriedade é algo altamente irreal e muito insultante para a memória da mesma.

Os insultos ao carisma de Elvis e a tentativa de colocá-lo como manipulador continuam quando ele leva Priscilla para comprar roupas novas. Ela quer comprar um vestido marrom sem graça e basta Elvis dizer que não gosta do modelo e que quer que ela use outras coisas, além de pintar o cabelo de preto, para Sofia Coppola impor um senso de machismo controlador à cena. Sabemos que o cantor sempre foi muito protetor das coisas e pessoas que ele tinha como suas mais adoradas, mas isso beira ao ridículo.

Voltamos então ao problema dos remédios prescritos de Elvis. E aqui a diretora simplesmente mostra Priscilla tomando antidepressivos como se fossem balinhas de goma para incutir na mente do mal informado que o claro vício dela era algo provocado por Elvis, que nunca oferecia seus medicamentos para outros. De fato, JD Sumner disse por diversas vezes que "as drogas pesadas que existiam nas turnês eram compradas pelos meninos da Máfia com assinaturas falsas de Elvis, mas Elvis nunca as usou e não sabia delas."

Depois de colecionar armas como se Elvis fosse um fora-da-lei que a obrigasse a isso, Priscilla se sente novamente pressionada a mudar seu estilo porque ele comenta que seu vestido - horrível, por sinal - não lhe cai bem. Ela também se mostra alinhada a tomar antidepressivos antes das aulas e, por estar indo mal nos estudos, compra uma colega com a promessa de leva-la a uma festa de Elvis. E em quem está a culpa, senão na pessoa que não se controla com remédios que não lhe foram oferecidos e trapaceia em uma prova?? Em Elvis é que não está.

Elvis lhe dá um carro, compra suas roupas, concorda em não ir em sua formatura para não virar os holofotes para ele, mas nada nunca está bom para Priscilla - o que, "obviamente", deve ser culpa dele, segundo Coppola. Pelo menos a diretora e as roteiristas decidiram deixar um trecho da verdade aqui, quando ela e Elvis fazem filmes e fotos íntimas caseiras (Currie Grant estaria falando a verdade, então?). Elvis então, sem motivo algum, bate em Priscilla por causa de uma brincadeira.

Como isso foi muita invenção para nossa cabeça, paramos a resenha de novo. O filme mal havia passado de uma hora e ainda tínhamos mais 50 minutos pela frente. O jeito foi dar mais um dia de folga para nosso intelecto. De fato, editando esse comentário agora, após terminarmos nossa avaliação, percebemos que fazer a crítica desse filme nos tomou o triplo do tempo que qualquer outro já havia nos tomado porque precisávamos parar de tempo em tempo por não acreditarmos no que víamos.

No nosso quarto dia de resenha, voltamos a Elvis em Graceland pedindo desculpas pelo ocorrido e implorando para que Priscilla abra a porta do banheiro e saia. Gostaríamos de saber o que ele fala, mas a voz que o ator deu ao Rei do Rock é tão enrolada e exagerada - como se estivesse com uma batata na boca - que é impossível distinguir palavras. Isso não é algo percebido apenas nesse momento, é no filme todo!

Vemos um Elvis extremamente traidor e agressivo nos próximos minutos. Priscilla questiona sobre Ann-Margret e ele e agride verbalmente; ao perguntar sobre recados trocados entre ambos, ela recebe novamente a agressividade do cantor. Ele até mesmo joga uma cadeira nela! Há aqui uma reunião de eventos que não condizem em nada com a realidade. Elvis era sim temperamental, mas nunca a este ponto na parte da história que supostamente estamos vendo - meados dos anos 1960. E mesmo que mais tarde ele viesse a ter reações mal pensadas, nunca houve relato de agressão física por parte de nenhuma das outras namoradas.

Chegamos a 1967 e Elvis e Priscilla se casam. A cena mostra amor e alegria, mas sabemos que Elvis tinha uma outra opinião sobre o que realmente ocorreu naquele primeiro de maio. Ele repetiria pelo resto de sua vida que foi ameaçado, coagido e forçado a se casar; que não tinha interesse em ser um homem casado naquele ponto de sua vida. Segundo ele,  tudo não passou de um golpe orquestrado pelo Coronel, Priscilla e seus pais. Por uma graça divina, a única coisa boa disso tudo foi o nascimento do único amor de Elvis depois de sua mãe: Lisa Marie.

Como contam várias fontes da Máfia de Memphis, logo após o nascimento de Lisa em 1 de fevereiro de 1968, Priscilla foi vista tomando banho com seu instrutor de caratê, Mike Stone. Claro, isso é distorcido aqui, colocando Elvis como o vilão que pede uma pausa no relacionamento enquanto Priscilla ainda está grávida. A relação com Stone, obviamente, não é nem mesmo comentada no filme, para não destruir a narrativa de uma mulher vítima de um homem extremamente machista.

Após vermos brevemente a gravação para o '68 Comeback Special, pulamos no tempo já para 1970 com Elvis se apresentando no seu "Summer Festival". A produção deixa claro que, nesse ponto da história, Elvis não tinha mais interesse algum em Priscilla, outra mentira que somos obrigados a engolir. Havia tensão, admitimos, mas o consenso era de tentar consertar o que fosse preciso. Mike Stone é mostrado somente aqui para esconder o relacionamento que já durava dois anos.

Chegamos a 1972 e ao fim do filme. Priscilla anuncia que está partindo e não dá motivo aparente, embora no livro ela cite "uso abusivo de drogas" e na realidade saibamos que suas traições com Mike Stone já não podiam ser escondidas.

O que sabemos também é que ela decidiu usar datas que destruiriam Elvis para anunciar tudo: em 24 de dezembro de 1971, ela diz a ele que o casamente está acabado; em 26 de janeiro de 1972, minutos antes do início do primeiro show daquele ano, ela o informa que vai partir. Tudo planejado para gerar o maior nível de estresse e sofrimento possível.

TRILHA SONORA

Para promover o filme,
a diretora Sofia Coppola contratou a banda de seu marido, a Phoenix, para compor a trilha sonora. Poucos trechos de músicas são de outros artistas e única que aparece completa é a versão original de 1973 de "I Will Always Love You", de Dolly Parton.

A trilha sonora foi lançada em 2 de novembro de 2023 em todas as plataformas digitais e em CD duplo pelos selos ABKO Records e A24 Music. Assim como o filme, o álbum fracassou nas vendas.





quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Um Novo Despertar: Elvis

ELVIS (EUA, 2022)

Título brasileiro:
Elvis
Gravação:
28 de janeiro de 2020 - Março de 2021
Lançamento:
24 de junho de 2022 (Mundial)
14 de julho de 2022 (Brasil)
Duração:
159min
Produtora:
Warner Bros.
Bazmark Films
Roadshow Entertainment
The Jackal Group
Wholerock Industries
Orçamento:
US$ 85 milhões
Arrecadação:
US$ 65 milhões (MUNDIAL, até 1 de julho de 2022)
Elenco principal:
Elvis Presley
Austin Butler
Chaydon Jay
Tom Hanks
Olivia DeJonge
Helen Thompson
Richard Roxburgh
Luke Bracey
Dacre Montgomery
Trilha sonora:
"Elvis" (CD / CD duplo / Digital)
(24 de junho de 2022)


Elvis é o primeiro filme de cinema a tratar da vida do Rei do Rock. Nele, o Coronel Parker apresenta os fatos da vida do cantor através de sua ótica. É dirigido por Baz Luhrmann, que co-escreveu o roteiro com Sam Bromell, Craig Pearce e Jeremy Doner.


Foi anunciado em 2014 que Luhrmann dirigiria uma cinebiografia de Elvis Presley, embora o projeto não tenha sido anunciado oficialmente até março de 2019. Austin Butler foi escalado para o papel-título em julho, superando vários atores de alto nível.

As filmagens começaram na Austrália natal de Luhrmann em janeiro de 2020, mas foram interrompidas de março a setembro, após o início da pandemia do COVID-19 e o diagnóstico positivo para a doença de Tom Hanks. As filmagens terminaram mais de um ano após o início, em março de 2021.

A produção foi toda filmada em locação e em estúdio na Austrália. De fato, alguns atores secundários deixam seu sotaque australiano escapar diversas vezes enquanto atuam como norte-americanos.

Embora seja um filme que veio prometendo trazer a real história de Elvis Presley, algumas cenas e acontecidos foram totalmente inventados, inseridos em contextos que não os reais ou distorcidos para favorecer uma narrativa. O próprio diretor deixou claro que sua intenção foi essa desde o início, o que pode prejudicar a aceitação da trama por parte dos fãs mais íntimos com a verdadeira história do cantor.

Quando lançado mundialmente em 24 de junho de 2022, o filme teve uma boa aceitação nos cinemas, rapidamente assumindo o segundo lugar nas bilheterias em seu final de semana de estreia com US$ 31 milhões, atrás apenas de "Top Gun: Maverick(lançado em 25 de maio de 2022), com US$ 126 milhões. Até 1 de julho de 2022, o filme permanece em segundo lugar com US$ 65 milhões, ainda perdendo somente para os mais de US$ 1 bilhão de "Top Gun".
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Abaixo listamos alguns erros e fazemos observações sobre nossa experiência com o filme, dada a partir do ponto de vista de que não se deve modificar fatos para agradar partes ou criar polêmicas comerciais.

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"Eu sou o lendário Coronel Tom Parker." As primeiras cenas mostram Andreas Cornelius van Kuijk em seu leito de hospital em Las Vegas, onde morreu devido a um AVC em 21 de janeiro de 1997, aos 87 anos, reavaliando sua vida e a relação com Elvis. Temos uma sensação de propagandismo de um protagonista que muito prejudicou Elvis e vemos as primeiras licenças poéticas do filme ao colocar uma Star Trek Experience em um outdoor em Las Vegas um ano antes de sua abertura e colocar Parker no International Hotel 25 anos depois de ter sido vendido para o Hilton.

Claro, Parker foi - com mérito - o responsável por alavancar a carreira do pobre menino vindo de Tupelo nos anos 1950, mas a história conta que essa relação passou a ser de quase - senão somente - exploração do cantor nos anos 1970, o que levou à piora de seus já existentes problemas de saúde. Parker até mesmo disse certa vez que não era ele que ficava com 50% do que Elvis ganhava, mas sim o contrário!

De início, parece que o filme quer nos fazer acreditar na ESTÓRIA e desacreditar a HISTÓRIA.

Da história da vida de Parker antes de Elvis até chegarmos ao verdadeiro objeto do filme, passam-se 10 minutos. As próximas cenas exploram o nascimento de Elvis e Jessie Garon, sua infância na pobreza e a prisão de Vernon, colocando-o no Shake Rag, o bairro pobre e negro de Tupelo, em 1947. Ali, ele aprende sobre o blues e os revivals evangélicos que tanto o fascinariam durante toda sua vida. São 2 minutos e meio que resumem de forma bastante trivial o que foi a infância de Elvis.

Memphis, 1954. O ritmo de Luhrmann sempre foi frenético em seus filmes, e isso se mostra aqui. Meros segundos resumem como a secretária de Sam Phillips teve seu pressentimento milionário - para Phillips -, a "invenção" de "That's All Right" e a chegada ao The Louisiana Hayride.

Há um mérito em mostrar que Elvis estava sempre em contato com a cultura negra e gostava de circular pela famosa Beale Street enquanto morava em Lauderdale Courts, mas isso pode ser encarado como apropriação cultural - o que já vem ocorrendo na opinião da geração Z - por não ter sido explicado da maneira correta e com a tomada de tempo necessária. Era preciso que essas cenas deixassem claro que Elvis jamais roubou algo dos negros - o que o próprio Little Richard, que sempre brincava sobre o cantor ter roubado suas oportunidades, sempre deixou claro - e sim criou seu próprio estilo usando o conhecimento que tinha.

A próxima sequência é importantíssima. Gladys nunca confiou no Coronel e isso - graças a Deus - é mostrado claramente. Ela sabia, como nós ficaríamos sabendo depois, que Parker tinha algo a esconder. Seu vício em jogatinas era saciado enquanto Elvis se apresentava de cidade em cidade, fazia viagens perigosas à noite enquanto cansado, se aventurava com garotas desconhecidas e recorria a antidepressivos para manter sua energia. Parker, ocupado com suas visitas a cassinos, não via ou não se importava com o que isso poderia acarretar contanto que seu "cofre" trouxesse o financiamento de seus vícios.

Através de manobras psicológicas que sempre giravam em torno de enriquecimento e vida boa, Parker conseguiu convencer os Presley - mas não totalmente a Gladys - a assinarem contrato como "uma empresa de família" para que Elvis fosse para a RCA.

O problema de Luhrmann nessas próximas sequências é que muita coisa foi retirada de contexto e tiveram sua linha de tempo modificadas para justificar algumas outras coisas. Elvis compra Graceland ao assinar com a RCA em 1955, quando na realidade foi em 1957; Gladys reclama o tempo todo de ser abandonada, quando ela na realidade mantinha quase tudo somente para si; Elvis brigava com ela, o que nunca foi o caso; Elvis canta "Trouble" ao vivo em 1956, uma música escrita somente dois anos depois para o filme King Creole.

"É o exército ou a cadeia." Esta é a desculpa do Coronel no filme para que Elvis e Gladys aceitassem seu alistamento e a ida para a Alemanha por dois anos. Aqui há mais uma mudança pouco bem-vinda na linha de tempo, mostrando a morte de Gladys antes mesmo que Elvis fosse chamado para ir ao Texas para sua primeira parte do serviço militar. Na realidade, Elvis ameaçou desertar porque o comando do exército não queria permitir que ele fosse ver a mãe doente, conseguindo através de Parker uma permissão para dois dias - sendo que Gladys faleceu no final do primeiro.

Alemanha, 1959. Chegamos ao ponto da história em que Elvis conhece Priscilla. Aqui nada é mencionado sobre ela ter apenas 14 anos e ter alegadamente manipulado o então namorado Currie Grant para que a apresentasse ao cantor. A alegada manipulação usada por ela foi levada por Grant ao tribunal nos anos 1980, quando Priscilla o processou por ter dito que tinha fotos comprometedoras dela em 1959. Currie perdeu o processo, mas teria recebido uma quantia em dinheiro para devolver fotos que a defesa de Priscilla dizia não existirem.

"Elvis era um jovem e se distraía, então fizemos filmes mais rápidos e baratos." Verdade maior não poderia existir. Depois de omitir os sensacionais 4 primeiros filmes de Elvis, Luhrmann resume bem o tempo em que Elvis passou em Hollywood nos anos 1960, fazendo filmes cada vez mais medíocres acompanhados de trilhas sonoras com o mesmo tom.

A mudança de comportamento de Elvis em relação aos rumos de sua carreira começam a aparecer em 1968. Há uma bela e necessária licença poética aqui quando Steve Binder diz a Elvis que sua carreira cinematográfica está "na privada" e o convence a fazer um especial de TV completamente diferente do programa natalino que Parker queria. O que o filme omite é que o Coronel fez de tudo para que Elvis se sentisse rejeitado pelo público, inclusive escondendo os ingressos para as filmagens do especial e não os enviando aos revendedores. As plateias foram apenas compostas de pessoas sortudas que estavam próximo ao estúdio e o viram de graça.

Embora este seja o trecho mais sólido do filme, novamente a sensação de se estar contando uma ESTÓRIA e não uma HISTÓRIA aparece. Não há menção da entrada de um personagem chave na vida de Elvis e Priscilla dali para a frente: Mike Stone. De fato, não há menção nem ao real motivo da separação do casal, que foi o já estabelecido relacionamento com Stone.

O ataque cardíaco do Coronel e a tentativa de Elvis de se separar de Parker em 1969 são os assuntos abordados rapidamente aqui. Através de uma manipulação psicológica que somente um psicopata teria capacidade de fazer, o velho tira uma carta da manga e convence Elvis a ficar em Las Vegas ao invés de sair em uma turnê mundial. Ao menos este fato histórico não pôde ser transformado em estória, apesar de o filme pular diretamente para as gravações de That's the Way it is em 1970.

Há uma grande confusão de linhas de tempo aqui, uma vez que, ainda em agosto de 1970 em Las Vegas, Elvis começa a receber as ameaças de morte. Este é um fato e a data está próxima da correta, mas a sequência de imagens e acontecimentos coloca a grande invasão do palco e a briga que se seguiu em 1973 como ocorridas ainda em 1970. Outro fato de 1973, sua primeira internação pública no Memphis Memorial Hospital, foi ligado ao ano de 1972 e a Elvis On Tour.

Nesta trama, Priscilla deixa Elvis em 1973 logo após Elvis atirar em um aparelho de TV. Na realidade, ela anunciou que iria embora ainda em 24 de dezembro de 1971 em Graceland, saindo da propriedade no dia 31 em uma aparente tentativa de estragar as festividades da família. Ela contaria a Elvis sobre Stone em 26 de janeiro de 1972, dia de seu primeiro show do ano. O aparelho de TV sendo alvejado aconteceu em 1975 e Linda Thompson estava lá. Há uma proteção e distorção descabida aqui, talvez pelo filme ter sido supervisionado de perto por interessados na ESTÓRIA e não na HISTÓRIA.

Os ocorridos a seguir também estão distorcidos de sua realidade. O ocorrido de 21 de maio de 1977, quando Elvis teve um colapso no hotel antes de seu show em Louisville, Kentucky, e teve de ser reanimado colocando sua cabeça em um balde com água gelada foi transferido ainda para 1973. Elvis cai no corredor do hotel, na frente de todos, o que nunca ocorreu. Elvis usa uma jumpsuit de 1972 durante o show de 1974 em que fala sobre ter descoberto que o Coronel era clandestino nos EUA, um erro que poderia ter sido evitado. Por fim, a briga que Elvis teve com Parker em seu quarto de hotel na madrugada de 4 de setembro de 1973 é transferida para o palco em 1972. Ponha-se licença poética nisso!

A sequência de erros ou licenças continua quando Elvis usa roupas de 1977 em um evento de 1974 que também não ocorreu como mostrado. Como contado por diversos amigos e pessoas próximas, Priscilla nunca realmente parou para conversar seriamente com Elvis e saber como ele estava - havia conversa, mas não profunda.

A cena da conversa se passa em Indianapolis, Indiana, em 26 de junho de 1977, dia de seu último show, fazendo o público que não conhece a verdadeira HISTÓRIA de Elvis -  e talvez até mesmo fãs - pensar que a ESTÓRIA de que eles estiveram juntos até o final é verdadeira. Na verdade, Linda Thompson, que foi omitida do filme - assim como Ginger Alden -, foi sua grande consoladora a partir de 1972.

"O filme vai até 1977," disseram o diretor e os produtores. Mas não é o caso. Como sempre, temos um filme que somente chega até 1973 e pincela rápidos fatos dos quatro anos seguintes. A única cena em 1977 é a reprodução de Elvis cantando "Unchained Melody" que se vê no final - com maquiagem bastante dúbia em Butler - e nada mais, uma vez que fatos daquele ano foram movidos para 1973.

O filme termina com breves segundos sobre a morte de Elvis, uma homenagem à rendição de "Unchained Melody" em 21 de junho de 1977 e imagens de seu discurso no Jaycee's de 1971. Há uma explicação no fim sobre os processos contra Parker pelo abuso que praticava com Elvis, o que ele fez com o resto de sua vida e a importância de Elvis para a música.

TRILHA SONORA

Para promover o filme,
a RCA e a Sony produziram uma trilha sonora com 36 faixas que incluem novos remixes de versões originais de Elvis e colaborações de artistas como Eminem, Doja Cat, PNAU, Les Greene, Swae Lee, Kacey Musgraves, Shonka Dukureh, Tame Impala, Austin Butler, e outros.

A trilha sonora foi lançada no mesmo dia do filme em todas as plataformas digitais e em CD duplo. Antes disso, uma série de singles começou a ser emitida em 3 de junho de 2022.