Na sequência, vemos Elvis sendo enviado ao serviço militar na Alemanha e há uma recapitulação dos anos 1960. O trecho é curto, mas bastante inflado com cenas de vários filmes dos seus treze anos em Hollywood. Ouvimos Elvis dizer que passou a odiar as produções em que era obrigado a trabalhar por causa dos contratos negociados por Parker. Elvis é direto: “Eu leio o roteiro e já sei que será mais um filme com a mesma história e doze músicas diferentes.”
Há, porém, um ponto que pode incomodar: enquanto Elvis fala dos anos 1960 e vemos imagens desse período, a trilha sonora traz material de 1973 — o que pode confundir tanto novos quanto antigos fãs quanto à época em que as músicas foram gravadas.
Por alguma razão bizarra, Luhrmann decidiu ignorar completamente o icônico ’68 Comeback Special e as gravações e shows de 1969, sem os quais Elvis dificilmente teria recuperado o impacto necessário para chegar ao patamar de 1970. Por escolhas financeiras de Parker, que negligenciou a necessidade de manter seu agenciado não apenas nas telas, mas também nas paradas musicais, Elvis era um cantor quase esquecido em 1968, ofuscado pelos novos artistas e tendências. Se o ’68 Comeback Special não o tivesse trazido de volta aos lares das pessoas, e se os discos From Elvis in Memphis, In Person at the International e Back in Memphis não tivessem sido produzidos, não haveria material para Luhrmann — nem haveria o Elvis pós‑1970 que o mundo conheceu.
SEGMENTO 5: "HOUND DOG"
O ano de 1970 começa com os ensaios de julho. O som foi convertido para estéreo de forma magnífica, mas as imagens são velhas conhecidas. Há, sim, trechos de filmagens inéditas, porém são poucos. O mesmo se aplica aos concertos em Vegas, já vistos em That's the Way It Is e em muitos bootlegs, de forma mais completa em “That's the Way It Is: The Complete Works” (2007).
Nota‑se ampla edição de áudio, perceptível em momentos em que vemos Elvis longe do microfone, mas ainda o ouvimos cantar. A transferência do áudio original para estéreo ficou boa, embora seja evidente o uso de overdubs na orquestra, com instrumentos que originalmente não estavam presentes. Uma sequência bem elaborada alterna entre Elvis cantando “Hound Dog” no The Ed Sullivan Show (1956) e no palco em 1970.
SEGMENTO 6: "POLK SALAD ANNIE"
Do show ao vivo, voltamos alguns dias no tempo para os ensaios no palco, em 7 de agosto de 1970. Elvis trabalha “Polk Salad Annie” com sua banda e há aqui um trecho completamente inédito: ele faz trocadilhos com a letra e comenta, em tom hipotético, sobre o uso de cocaína e haxixe pela personagem da canção. É fácil entender por que esse momento ficou tanto tempo fora do alcance do público, dadas as associações infundadas que ligavam Elvis ao uso de substâncias ilegais.
O áudio ao vivo foi editado a partir de diferentes shows e muito bem transferido para estéreo, mas ouvir a plateia sobre as filmagens dos ensaios pode, novamente, confundir alguns espectadores, levando-os a crer que se trata de uma apresentação ao vivo.
SEGMENTO 7: "YOU'VE LOST THAT LOVIN' FEELIN'"
Em 30 de março de 1972, Elvis fala sobre seus shows e o entrosamento com a banda. A sequência é longa e oferece muitos insights sobre o Elvis daquele momento. “You've Lost That Lovin' Feelin'” começa a tocar ao fundo durante os diálogos e, em seguida, vemos uma versão no palco, sem as edições empregadas em That's the Way It Is.
SEGMENTO 8: "WEARIN' THAT LOVED ON LOOK"
Elvis discorre sobre o peso da fama em sua vida e sobre como saber cantar mudou completamente a forma como seus colegas o viam no colégio. Aqui temos uma das raras ocasiões em que o cantor fala sobre sua primeira experiência com a música: aos 10 anos, apresentou‑se na escola cantando “Old Shep” em um festival e obteve o terceiro lugar (algumas fontes indicam a quinta posição).
SEGMENTO 9: "LITTLE SISTER / GET BACK"
Ainda em março de 1972, Elvis continua falando sobre seu início e conta como seu pai se opôs à ideia de ele se tornar cantor, preferindo que seguisse como eletricista ou motorista de caminhão. Surge aqui a famosa frase de Vernon: “É melhor você decidir se quer ser um tocador de violão ou um eletricista. Eu nunca vi um tocador de violão que valesse alguma coisa.”
A filmagem da performance do medley “Little Sister / Get Back” durante o show da meia‑noite de 12 de agosto de 1970 é inédita oficialmente, embora já estivesse disponível por outros meios desde os anos 1990.
SEGMENTO 10: "I SHALL BE RELEASED"
Enquanto ouvimos Elvis improvisar uma música de Bob Dylan durante as sessões da Maratona de Nashville, em junho de 1970, são exibidas imagens de bastidores de 1972. O Rei do Rock aparece dando total atenção à pequena Denise Sanchez, uma fã de oito anos que sofria de leucemia, em seu camarim antes do show de 19 de abril em Albuquerque. No documentário Elvis On Tour, ela é ouvida pedindo que Elvis cante “Teddy Bear” para ela, mas esse trecho foi cortado aqui. Há alguns frames inéditos dos bastidores de shows de 1972.
SEGMENTO 11: "BURNING LOVE"
Em 5 de abril de 1972, Elvis ensaia “Burning Love”com sua banda em Buffalo, Nova York, em filmagens oficialmente inéditas e de alta qualidade. A edição de som e imagem alterna entre esse ensaio e a primeira versão da música no palco, enquanto vemos trechos inéditos dos bastidores de vários shows. “Stranger in My Own Home Town”, dos ensaios de julho de 1970, é ouvida sobre imagens de bastidores de 16 de abril de 1972 — sequência originalmente mostrada em Elvis On Tour, mas aqui editada para remover uma pequena piada de cunho sexual feita por Elvis.
SEGMENTO 12: "(YOU'RE THE) DEVIL IN DISGUISE"
Parker é o foco neste momento, enquanto ouvimos a gravação de 1963 que expressa exatamente a opinião da maioria dos fãs sobre Andreas Cornelis Van Kuijk: “Você é o diabo disfarçado.” Naturalmente, a admiração de Luhrmann por outros “diabos disfarçados” pode transmitir certa sensação de hipocrisia.
Enquanto Elvis fala sobre sua associação com Parker e deixa implícito o quanto aquele homem o controlava, vemos imagens que confirmam seu relato — a mais contundente delas mostra Parker enraivecido nas sombras do show de 10 de abril de 1972, em Richmond.
SEGMENTO 13: "NEVER BEEN TO SPAIN"
Seguindo no mesmo tema do segmento anterior, ouvimos Elvis comentar como gostaria de viajar e se apresentar em outros países. Imagens raras, embora não inéditas, da performance de Seguindo no mesmo tema do segmento anterior, ouvimos Elvis comentar como gostaria de viajar e se apresentar em outros países. Imagens raras, embora não inéditas, da performance de “Never Been to Spain” em Hampton Roads, no dia 9 de abril de 1972, são exibidas, acompanhadas de uma edição da música reunindo trechos de diversas apresentações do período. Alguns segundos inéditos de Richmond são visto no final.
SEGMENTO 14: "LOVE ME"
Assistimos à performance de “Love Me” no The Milton Berle Show em 1956, enquanto Elvis fala sobre a devoção dos fãs e o quanto isso podia ser um fardo. Entre relatos de roupas rasgadas e mulheres ousadas, vemos trechos da canção em Hampton Roads, em 1972, e em Las Vegas, em 12 de agosto de 1970.
SEGMENTO 15: "BLUE MOON"
Gravada no Sun Studio em 1954, a música é ouvida enquanto Elvis comenta sobre as diferenças no processo de masterização entre suas primeiras gravações e aquelas feitas na RCA em 1956. O cantor também aparece refletindo sobre a distinção entre sua imagem pública e sua vida privada — e como uma deveria permanecer separada da outra — durante a coletiva de imprensa para os shows no Madison Square Garden, em 9 de junho de 1972. Um trecho do ensaio de “Twenty Days and Twenty Nights”, realizado em julho de 1970, é ouvido e exibido ao final.
SEGMENTO 16: "CAN'T STOP LOVING YOU"
Em uma entrevista de 1972, ouvimos Elvis explicar a dinâmica que estabeleceu com sua banda no palco. Ele esclarece que todos estavam preparados para tocar cerca de 150 músicas diferentes, ficando a seu critério decidir qual seria a próxima. De fato, Elvis costumava alterar a ordem das canções ou retirar e recolocar algumas em diferentes shows. No entanto, havia o controle de Parker sobre o que considerava “clássicos” — músicas que, segundo o agente, afastariam o público caso não fossem apresentadas em todas as performances. Essa imposição acabaria deixando Elvis desgostoso com seus shows a partir de 1974.
Ao final das explicações, temos uma versão de “I Can’t Stop Loving You”, retirada do show das 20h30 de 13 de agosto de 1970. A edição de áudio evidencia a voz cansada de Elvis após quatro dias consecutivos de apresentações. O trecho é novo em um contexto como este filme, mas não inédito, já que foi lançado oficialmente em 1992.
SEGMENTO 17: "ARE YOU LONESOME TONIGHT"
Enquanto assistimos a 40 segundos de imagens inéditas de bastidores em agosto de 1970, Elvis fala sobre como se sentia sozinho e solitário mesmo cercado por tantas pessoas — uma solidão recorrente em sua vida, que permeou muitos, senão a maioria, dos momentos mais difíceis de sua carreira. No palco, Elvis canta “Are You Lonesome Tonight” na apresentação da meia‑noite de 12 de agosto de 1970, em trecho oficialmente inédito.
SEGMENTO 18: "ALWAYS ON MY MIND"
Refletindo sobre o significado do amor, Elvis retorna ao tema da solidão e confessa que precisa de alguém para amar e ser amado, para que sua vida tenha sentido. Baz Luhrmann demonstra sua devoção intensa a Priscilla Beaulieu, o que transparece aqui em imagens de arquivo nas quais ela ocupa o centro das atenções, enquanto ouvimos Elvis cantar “Always on My Mind” durante o ensaio de 30 de março de 1972. O take utilizado é oficialmente inédito, embora já conhecido do público. Esta seção também apresenta várias fotos novas de Lisa com seu pai.
SEGMENTO 19: "OH HAPPY DAY"
Voltamos ao ensaio de 7 de agosto de 1970, onde Elvis nos presenteia com uma versão magnífica da canção. Embora o áudio não seja inédito, as filmagens completas são. A edição de som está muito bem realizada.
SEGMENTO 20: "HOW GREAT THOU ART"
Estamos falando de Elvis, e obviamente o Gospel não poderia faltar. No palco em Hampton Roads, em 1972, o Rei do Rock apresenta uma versão excelente de sua gravação de 1966, faixa‑título do álbum lançado no ano seguinte. Seus vocais foram praticamente isolados, e a adição de eco confere um tom etéreo à música. Um trecho inédito da sessão Gospel improvisada durante os ensaios de março de 1972 é exibido, mostrando Elvis cantando “Nearer My God to Thee”, antes de retornarmos para a conclusão de “How Great Thou Art” no palco.
SEGMENTO 21: "A BIG HUNK O' LOVE"
Elvis ensaia a música em 5 de abril de 1972 e, em seguida, o vemos apresentando‑a ao vivo nove dias depois, em Greensboro — versão que foi oficialmente lançada em 1992. Por algum motivo não explicado, os close‑ups durante o solo de James Burton são retirados de Aloha From Hawaii (1973), o que fica evidente pela cor da roupa do guitarrista: azul‑marinho em 1972 e branca em 1973.
SEGMENTO 22: "BRIDGE OVER TROUBLED WATER"
De volta aos estúdios da MGM em Culver City, em julho de 1970, Elvis inicia o ensaio de uma das músicas que se tornariam ícones de suas apresentações, representando de forma perfeita sua maestria e extensão vocal, em um trecho de filme até então oficialmente inédito. No palco, vemos interpretações da canção em Las Vegas, em 1970, e em Hampton Roads, em 1972. Enquanto J.D. Sumner comenta sobre como Elvis dominava o palco, são exibidas imagens inéditas dos ensaios de 1972.
SEGMENTO 23: "IN THE GHETTO"
A versão de estúdio da música começa com alguns overdubs que soam estranhos, enquanto ouvimos Elvis falar sobre manter suas opiniões pessoais fora dos palcos. É um segmento curto, que termina com a versão ao vivo da canção, lançada oficialmente em 1992, seguida da interpretação de “Walk a Mile in My Shoes” em versão oficialmente inédita.
SEGMENTO 24: "SUSPICIOUS MINDS"
Talvez tenha faltado criatividade, ou Baz realmente quis que esse trecho fosse apresentado dessa forma. Seja como for, vemos a versão mais conhecida da música nos palcos: a interpretação de 11 de agosto de 1970, registrada em That’s the Way It Is. Aqui, a edição de áudio é pesada, colocando os agudos de Millie Kirkham em primeiro plano e criando uma distração desnecessária. Quando Elvis move a cabeça para marcar as batidas de Ronnie Tutt, o som da bateria foi removido, gerando uma sensação estranha.
SEGMENTO 25: "CAN'T HELP FALLING IN LOVE WITH YOU"
Também é mostrado um trecho oficialmente inédito da festa pós‑show no camarim de Elvis, no International Hotel, em 10 de agosto de 1970. Vestindo o famoso traje de couro preto do ’68 Comeback Special, o cantor conversa com celebridades. O Rei do Rock é então ouvido falando sobre como era constantemente procurado por seus fãs e o quanto sentiria falta disso caso encerrasse a carreira, enquanto o fundo musical é composto por uma edição de “Are You Lonesome Tonight”, intitulada “Bring the Curtain Down”. A finalização de “An American Trilogy”, iniciada no Segmento 1, acontece aqui.
Por fim, chegamos ao encerramento do filme e, naturalmente, não poderia ser com outra música senão aquela que concluiu quase todos os mais de 1.100 concertos de Elvis entre 1969 e 1977. Ouvimos o cantor interpretar a canção e vemos imagens de diversos shows, embora sem material inédito. Há, no entanto, cerca de 20 segundos de bastidores oficialmente inéditos exibidos antes e durante os créditos. Nesse trecho, ouvimos edições produzidas a partir de diferentes músicas, reunidas sob os títulos “American David”, “A Change of Reality (Do You Miss Me?)” e “Don’t Fly Away”.